domingo, 19 de junho de 2016

Solar da Baronesa

Solar da Baronesa

Solar da Baronesa





Baronesa do Serro Azul
Construído ao lado do Solar do Barão, há dúvidas quanto a data em que foi erguido. Alguns dizem que é contemporâneo da construção da casa principal. Outros dizem que foi construída após a morte do Barão.
Uma coisa porém parece ser certa: a baronesa passou a residir nesta casa após o assassinato de seu marido, Ildenfonso Pereira Correia, o Barão do Serro Azul.
Mais simples, com apenas um andar, a casa segue o mesmo estilo da vizinha. Janelas em arcos e sacadas em ferro fundido. Tem porém um porão alto, com aberturas.
Também é um bem tombado pelo Patrimônio Cultural do Paraná e uma Unidade de Interesse de Preservação.

A seguir a carta da Baronesa do Serro Azul ao senador José da Costa Azevedo, Barão de Ladário:

“Exmo. Sr. Barão de Ladário. Rio de Janeiro.
Cumprimentando a V. Exa., espero que me será perdoada esta liberdade com que vou prestar a V. Exa. informações sobre o monstruoso attentado que trouxe lucto eterno a meu lar, para sempre deserto das alegrias que eram para o meu coração de esposa e para a innocencia de meus filhos, hoje orphãos de pai, o único e grato conforto da vida.
Aqui desta sombra do claustro em que sinto minha alma sepultada, e onde a coragem que me resta, nasce da própria immensidade de meu sofrimento, começo a notar, senhor que, a Justiça indefectível de Deus está escolhendo entre os puros e os bons desde mundo os instrumentos poderosos de que há de em breve valer-se para a solemne reparação que se lhe deve na terra. E V. Exa. foi dos primeiros entre esses que em todos os tempos e no seio de todas as nações como que a Providencia designa para serem o verbo de fogo a fallar às almas, a pungir os corações emocionando os povos, apontando-lhes no céo a cor azul e immaculada da Lei, para que as magistraturas abalem-se e as consciências volvam a ouvir a voz clamorosa dos túmulos, onde o martyrio não dormirá eternamente, porque eterna só há de ser a devida soberania do Direito e da Verdade.
E desde que V. Exa. justamente assombrado ante o que se passa neste paiz, está sendo um dos poucos (mas poucos que teem a força das legiões) que se empenham pela desaffronta desta geração perante a História, julgo que é do meu dever, o dever piedoso e santo que me é imposto pela memória saudosíssima de meu infeliz esposo, contribuir para que V. Exa. exerça neste momento a heróica e sagrada missão de clamar por desaggravo completo à honra e à inoccência das victimas que aqui foram sacrificadas ao furor incontinente e aos desvarios de homens que já teem a consciência galvanizada pelo mal.
Não repetirei o que por certo V. Exa. já sabe, em relação aos successos que, desde princípios de 1894, se deram neste Estado; mas em poucas palavras recordarei quanto do papel que coube ao meu inditoso marido, o Barão do Serro Azul, no meio dos acontecimentos que se desdobraram.
V. Exa., decerto, já tem notícias das condições em que o então governador deste infelliz Paraná, Dr. Vicente Machado da Silva Lima, abandonara esta capital em Janeiro de 1894, deixando forças do governo luctando em diversos pontos e sem communicar essa inesperada resolução sequer aos mais íntimos amigos seus que se achavam na cidade.
Curitiba (a mísera Curitiba! – como justificadamente disseram folhas de S. Paulo) ficou inteiramente entregue aos azares do desconhecido; pois o governador, ao retirar-se, nem ao menos incumbira a municipalidade da polícia urbana! Tribunais, repartições públicas, commercio, officinas, e as famílias absolutamente à mercê do primeiro salteio, enquanto a autoridade legal contradizia os seus protestos da véspera fugindo em desespero para o Estado vizinho. É fácil fazer uma idéia da situação em que se viram estas populações, suffocadas de pavor ante os extranhos sucessos que se passavam, e ainda sob as impressões e suspeitas que lhes haviam posto no coração transtornado, de que andávamos em vésperas de saque, do extermínio, do arrasamento que passariam por esta terra com as hostes temerosas da revolução.
Em semelhante conjunctura, as classes em que é mais natural e profundo o espírito de conservação, recorreram ao único meio que parecia efficaz no sentido de garantir ao menos os direitos primordiaes das gentes: isto é – fizeram a escolha de uma comissão que tomasse a si o trabalho de neutralisar, como fosse possível, as violências a que se achava exposta a cidade. Foi assim que meu marido, com outros membros do commercio e das diversas classes, tomou a si o grande e penoso encargo de collocar-se entre os revolucionários triuphantes e a família paranaense, cuja paz e cujos direitos o governo legal estava impossibilitado de assegurar no momento.
A população inteira de Curitiba, os próprios adversários ou desafectos do Barão do Serro Azul ainda podem dizer hoje como e com que sacrifício de saúde e de seus interesses elle tornou-se o centro e a alma da commissão; arregrando tudo, contendo ímpetos , fazendo em summa quanto pudesse attenuar para o commercio, para a industria, para a propriedade e para a família curitibana, os effeitos da emmergencia excepcional em que se via a cidade. Um só documento será capaz alguém de apresentar de que meu marido siquer tivesse sympathias pela revolução. Em vez disso, seria facílimo fornecer provas positivas de que o Barão do Serro Azul, aos próprios chefes revolucionários, nunca dissimulou o seu modo de pensar a respeito do immenso descalabro que a invasão vinha causar ao Paraná e e especialmente quanto à efficacia do extremo recurso da revolta como meio de corrigir os erros da tyrannia e operar o restabelecimento da Constituição e das leis – de modo horroroso subvertidas pelas paixões dos próprios homens que tinham o dever de conservar-lhes immaculada a pureza e a magestade intangível. Foi tal, senhor – e o Paraná inteiro ahi tereis para confirmal-o – foi tal a reação exercida por meu inditoso marido nos dias dolorosos em que Curitiba esteve pelo Governo entregue à revolução triumphante, que o commercio, a industria, a imprensa, todas as classes sociaes apontavam-no sempre como o elemento principal da grande força que constituiu-se à égide do direito, da ordem, da tranqüilidade de todos, tanto quanto era humanamente possível naquelles momentos anormaes.
E tão certo e convencido estava o Barão do Serro de que os serviços que prestara pela última vez a esta terra, que tanto lhe mereceu e que por ninguém, mais do que por elle, foi servida com desinteresse e solicitude indiscutíveis, tão certo, digo senhor, de que taes esforços seriam reconhecidos e louvados pelo governo que retomava o seu posto – que absolutamente recusou fazer o que todos os culpados fizeram. Com calma e até com satisfação e alacridade, esperava, pode-se dizer sorrindo, o governo legal, a quem desejava até dar contas do modo nobre como soubera zelar do direito, da fortuna e da honra de seus patrícios – honra, direito e fortuna que a autoridade legítima não tinha tido a coragem de amparar e defender.
Mas, logo nos primeiros dias após a chegada das tropas legaes, entre cujas fileiras o governador que fugira estava como um triumphador, meu marido percebeu que os sentimentos dos que voltavam desmentiam toda a convicção com que via restabelecer-se a lei na terra paranaense; e isto não sem pasmo da população inteira, que suppunha-se mais com direito à condolência pelo seu sofrimento, do que no risco de vir a padecer castigos por uma culpa que só o Governo commetera desertando o seu posto de guarda da Lei e garantidor da paz e da ordem. E que julga V. Exa. que fosse o pensamento de que vinha cheia a alma dos que haviam fugido?
Não quero alongar-me demais dando conta do que occorreu, dos excessos de toda ordem que caracterisaram os angustiosos longos primeiros dias da reocupação legal. Um dia há de haver quem se incumba de dar à América, para escarmento dessa geração, uma pintura fiel e minuciosa desses incríveis insucessos, que encheram de mágua e de santa revolta até a alma dos mais indifferentes e que fizeram esquecer de todo os males, os insignificantes males da revolução!
Para o que me proccupa, é bastante dizer a V. Exa. que – entre o assombro que lhe produzia a descaroável e monstruosa conducta que se annunciava contra todos os que não tinham opposto à invasão a resistência da fura, e a mágua que lhe calou fundo no coração sentindo ainda uma vez a sua virtude impotente para fazer emmudecer a perversidade, a inveja e a calumnia – meu marido cedeu a instancias da família reservando-se às violências que tinham já começado a ser praticadas contra a população, deve-se dizer, pois os quartéis, os theatros e até casas escolares desta capital regorgitavam de presos, em toda expansão da ferocidade republicana, semelhante aos instinctos daquelle deus cujas iras applacavam-se pela vingação e pelo sangue dos holocaustos. Dessa cautelosa reserva, no dia 10, meu marido sahiu, como sahira Jesus das Oliveiras – entregue por um amigo dos muitos em quem teve a infelicidade de crer.
Já estava em nossa casa muito tranquillo e confiante na misera justiça dos homens, e até sem reprimir palavras de elogios ao general Ewerton Quadros (que o havia apenas pro formula detido sob palavra) quando o coronel Pires Ferreira, acompanhado de outros militares, procura meu marido para uma conferencia, conferencia esta na véspera annunciada, com todas as seguranças de cordialidade e boa fé, por parte do commandante do districto. Como (talvez pressentindo que aquelles homens traziam para o meu lar a desgraça que aqui está bradando eternamente para o ceo) não quizesse eu acompanhar meu marido à sala, após uma prosa cordial e expansiva, tive de ver no recinto íntimo de minha família aquels frontes cuja impressão ainda hoje me tortura. E então meu esposo contou-me que o governador fazia uma carga immensa de responsabilidades contra elle e que por isso devia recolher-se ao quartel no dia seguinte. Sem conter o incommodo que todos deviam ter notado no meu semblante, perguntei logo si era com a prisão que se compensavam os serviços feitos por meu marido a Curitiba, ao que me respondeu o coronel Pires Ferreira: “Oh! Minha senhora, pois V. Exa. nos falla em prisão! V. Exa. esquece que sou o coronel Pires Ferreira, velho amigo do Conselheiro Correia e, portanto, amigo de seu esposo!... Sra. Baroneza, tranquillise-se: o Barão não é preso, o Barão é meu hóspede”.
No dia seguinte, meu marido recolheu-se a uma sala do quartel do corpo commandado pelo coronel Pires Ferreira. Alli deu-se a mais plena liberdade ao hospede, com quem o commandante conviveu na mais perfeita e apparentemente mais cordial intimidade durante seis dias. A sala em que meu marido foi aposentado tinha janella para a rua e a entrada era inteiramente franca para todos. À noite, o Barão, o coronel e outros oficiaes jogavam quase sempre o solo.
Mas, ouça V. Exa., ouça senhor, e diga que não crê para honra da piedade humana: vive ainda official do exercito que, compungido, disse uma vez à pessoa de minha família – que sentia horror ao ver aquelle homem, que tinha conhecimento de tudo que estava para passar-se, e alli a encarar o barão sem tremer e a tratal-o de amigo!
Talvez V. Exa. não comprehenda ou pelo menos não encontre explicação para as deferencias especiais que se tinha com meu marido. Pois bem: agora V. Exa. fica sabendo que o plano era este: instigar no hóspede o desejo de fugir para ser trucidado sem responsabilidade criminal!
Decorridos quatro ou cinco dias, achando-me de visita a meu marido, ouvi do coronel: “Já sabe, sra. Baroneza, que conversei hoje longamente com o Barão. Estou sciente de quanto houve por aqui. Deixe tudo por minha conta”. E passa um instante, acrescentou: “E não há de ver, sra. Baroneza, que o Barão é também religioso!”. Ironia pungente à fé puríssima e à conhecida religiosidade de meu esposo.
E quando confirmei os sentimentos que se extranhava naquelle dito, ouvi o coronel Pires Ferreira, ouvi sahir dos lábios meio cerrados daquelle homem sinistro e quase à meia voz– “Pois que se console... porque Christo também soffreu...”
Taes palavras (e no tom em que foram ditas) arripiaram-me; entretanto, sempre eu entendia que a resignação aconselhada era para aquelle soffrimento da prisão.
Nesse dia, e sem que a nada me magoasse mais do que era natural (pois o coronel soubera habilmente preparar o meu espírito para ella) tive sciencia de que o barão se passaria para o quartel do 17º, onde ficaria com outros presos. Effectivamente, no dia seguinte, meu marido ia, de carro e com todas as attenções, para a sua nova prisão.
Quando elle tomou o carro, o coronel da janella, correspondeu amavelmente ao seu ultimo acceno de mão, e logo que o vehiculo partiu – da alma do coronel Pires Ferreira sahiu esta phrase ouvida por alguns de seus officiaes: “Este será liquidado dentro de dous dias...”.
O prognostico realisou-se com a differença apenas de um dia.
O resto V. Exa. sabe e eu procuro desviar da minha imaginação aquelle trem-esquife que, às 10 horas da noute de 20 de maio de 1894, partiu de Curitiba conduzindo o Barão do Serro Azul e seus companheiros de sacrifício.
No momento em que o comboio-tumba partia da estação, o coronel Pires Ferreira achava-se em um dos clubes desta capital e, da sacada do prédio houve quem lhe surprehendesse esta phrase escapada daquella alma tremenda: “Oh! Que inconveniência! Deixarem apitar um trem destes!...”
V. Exa. decerto há de ter tido noticia do modo como se consumou aquella monstruosidade que maculou para sempre a civilisação deste paiz e que não encontra símile na história da humanidade. E não fora a minha fé, senhor, a minha fotaleza moral e a resignação que sinto lembrando-me de Jesus, como se comprehenderia que me ficasse ainda, depois de todas estas angustias, este resto de vida e de coragem para resistir à loucura no meio da minha desgraça!
Só alguns dias passados, o boato começou a correr pela cidade; e às esposas aflictas que procuravam o comandante militar para ouvir o desmentido da nova inverossímil, affirmava o general Ewerton Quadros, com sorriso nos lábios e com mostras de sinceridade atravez das quais era impossível perceber um resquício de remorso, affirmava sob sua palavra de honra que os presos haviam seguido para o Rio.
E quando a alma da população inteira foi-se enchendo de oppressão horrível ante as versões que corriam como um clamor de dies ire, deixando por sobre a capital do Paraná a a sombra pavorosa da agonia e do lucto – o general, cuja espada viera restaurar a lei, mandava que as bandas militares, com o som da música festiva, dispersassem os agoiros que suspendiam a vida de um povo, como quem a gritos estridentes espanta uma corvada que fareja matanças! Ao mesmo tempo, senhor, fazia-se declarar às famílias das victimas que não podiam cerrar as portas nem dar outras demonstrações de lucto... sim – visto como era falso o que se fallava...
O governador deste estado, naquelle tempo, V. EXa. sabe também, é hoje senador da Repúblilca, e com o coronel Pires Ferreira, ahi está clamando porque, antes de tudo, se approvem os actos do Marechal Floriano e necessariamente todas as monstruosidades comettidas em nome do Vice-Presidente da República . Até agora, portanto, os dous homens (homens, senhor!) que fizeram no Itararé o conhecido pacto negro, manteem-se fiéis ao seu juramento de covardia e de sangue: estão ambos no Senado da pátria, naturalmente bendizendo a mísera que, como Prometheu aos seus abutres, os alimenta de posição e talvez de fortuna, com o próprio sangue e com a desgraça de seus filhos.
É possível senhor que se quizesse contestar esta narração; e V. Exa. comprehende que almas assim avassaladas do crime e entregues às convulsões da sua fereza, devem ter ainda a serenidade da hyena para o desplante de limpar das fauces o sangue das victimas.
É verdade também que poderiam alludir à minha suspeição de mulher e de viúva obumbrada pela fatalidade que me feriu. Mas, senhor, o que ahi fica – peço a V. Exa. que não esqueça agora – nasce da alma de uma creatura que tem os olhos voltados para a misericórida de Deus e que não clama sinão pela Justiça, para que o martyrio das victimas não fique pesando sobre os destinos deste paiz, em que tenho de deixar os meus tristes filhos.
Com toda a consideração e respeito, subscrevo-me de V. Exa. criada, obrigadíssima. (a) Baroneza do Serro Azul. Curitiba, 8 de junho de 1895".

Referência:

CORREIA, Maria José Pereira. [Carta] 8 jun. 1895, Curitiba [para] AZEVEDO, José da Costa. Rio de Janeiro. Informações sobre o monstruoso attentado que trouxe lucto eterno a meu lar. In: ANNAES DO SENADO FEDERAL: Segunda Sessão da Segunda Legislatura. Volume II. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1895. p. 198-201.