quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Uma grande pintura de um desenho de Poty Lazzarotto

Uma grande pintura de um desenho de Poty Lazzarotto

Essa grande pintura de um desenho de Poty Lazzarotto (1924-1998) está na face lateral (voltada para a Avenida Marechal Floriano) de um pequeno edifício de três andares, cuja fachada é voltada para a Rua XV de Novembro.
Retrata um operário descansando e fazendo um lanche em um andaime na torre da catedral. Repare na cesta (de pão?), na garrafa e no copo na mão (seria vinho?). Enquanto no céu passa um dirigível.

O operário trabalhando na torre trata-se de uma licença artística. Os zeppelins foram frequentadores dos céus brasileiros entre 1930 e 1937. Em 1936 o dirigível “Hindenburg” sobrevoou os céus de Curitiba. Desconheço qualquer reforma da catedral naquele ano, cuja construção foi concluída em 1893. Já ví uma foto da época mostrando a catedral e o dirigível.

No texto, já bem desgastado, está escrito:
“Por ocasião dos 300 anos da
nossa cidade, cumprem-se
os primeiros 100 anos da
Catedral de Nossa Sra. da Luz
dos Pinhais de Curitiba.
Comemorar é Conhecer.”


O voo do Sr. Theodulo Ceballos


O primeiro registro de voo em Curitiba que conheço é de 1876, quando o mexicano Theodulo Ceballos vez um voo com um balão. Tratava-se na realidade de um espetáculo de circo e o Sr. Theodulo parece que estava mais para malabarista do que para aeronauta.
No jornal “Dezenove de Dezembro” do dia 22 de janeiro de 1876 foi publicado o seguinte anúncio:
“FAMILIA NELSON
GRANDE ASCENSÃO DO BALÃO MONSTRO
O aeronauta Theodulo Ceballos participa ao illustrado publico desta cidade, que pretende executar sua ascenção aerostática no domingo 30 do corrente na praça matriz e como para fazel-a necessita haver uma quantia não inferior a 1:000$ para cobrir os gastos, se trata desde já de organisar uma commissão de differentes senhores imcumbidos de passar os respectivos bilhetes, sendo o preço de cada um 2$000, os quaes não só servirão para a ascenção como para o espetaculo que terá logar nesta noite.
Os bilhetes estão a venda desde já nas pharmacias Requião, e Sttelfeld, bem com nas casas dos Srs. Gustavo Meussin e Miguel Montesano”.

Pelo jeito não foi possível fazer o voo no dia pretendido, mas o mesmo jornal “Dezenove de Dezembro” publicou na sua edição do dia 9 de fevereiro de 1876 uma grande matéria, ocupando aproximadamente 3/4 de página, que transcrevo alguns trechos:

“Como havia sido annunciado, domingo último, 6 do corrente, realisou-se a ascensão do balão aerostatico feita pelo Sr. Ceballos.
Deste as 10 horas da manhã começou o povo a affluir para o largo da Matriz, nas circumvisinhanças do circo. Em todos os semblantes notava-se a extrema curiosidade de assistir ao grande commettimento do audaz mexicano, como um espectaculo todo novo, nunca visto nesta capital.
Espalhou-se, neste interim, a noticia de que a ascensão não poderia ter logar, por não haver-se ainda conseguido completar a quantia necessaria parta o divertimento verificar-se ….
Quasi que toda a população da capital estava alli, …
… mas afinal o signal foi dado, e o aeronáuta appareceu no circo em seus trajos de artista gymnastico … .
A´ordem sua, as cordas que prendiam o balão foram soltas, e com a rapidez do relampago e o sangue frio do stoico, o arrojado mexicano, apegando-se as duas argolas que, abaixo do aorostato, estavam presas aos cordeis que pendiam, … .
Ceballos, seguro apenas pelas duas argolas a que se apegára, executava, entretanto, no ar trabalhos gymnasticos dos mais difficeis, … “.

E assim continuaram descrevendo o ocorrido:

“… No alto de S. Francisco verificou-se, porém, que a descensão se findara um pouco mais distante, nos terrenos de uma chacara do Sr. Lustosa de Andrade, à cerca de 2 kilometros desta cidade.
Muitos curiosos foram, uns à pé e outros à cavallo, até alli; mas a maior parte do povo aguardou no alto o regresso do Sr. Ceballos, para recebel-o com vivas e bravos, e depois, ao som da musica, acompanhanl-o até o circo.”

E a notícia seguiu, informando que o Sr. Ceballos pretendia efetuar um novo voo no dia 13 seguinte.

O voo de Maria Aida


Outro voo de balão que ficou famoso na cidade foi o realizado por Maria Aida em 21 de abril de 1909, sobre o qual já escrevi alguma coisa em “Um brinquedo e a história da cidade”.

O marechal dos ares esteve em Curityba!


Esta foi a manchete de primeira página do jornal “O Estado” no dia 2 de dezembro de 1936, noticiando a visita do dirigível “Hindenburg” ocorrida na manhã do dia anterior.
Foi uma espécie de voo panorâmico para personagens ilustres, partindo do Rio de Janeiro, sobrevoando o litoral até o norte de Santa Catarina, indo até Florianópolis e depois, no retorno, dando uma passadinha sobre Curitiba (onde havia uma colônia alemã significativa).
O jornal registra a presença dos seguintes convidados a bordo: “Ministros Sousa Costa, Gustavo Capanema, gen. João Gomes, almirante Aristides Guilhelm, sr. Luiz Vergara, secretario da presidencia da república; cel. Mendonça Lima, diretor da Central do Brasil, sras. Adelia Vergara, Marietta Duarte Chança, Miranda Teixeira, sr. Paulo Underberg, Manoel Valente, Carlos Maia, Trajano Furtado Reis, director do Departamento Aeronautico Civil; deputados Waldemar Ferreira, Lauro Lopes e Diniz Junior e o sr. Herbert Moses, presidente da Associação Brasileira de Imprensa”.

Enquanto sobrevoava a cidade ocorreram trocas de mensagens telegráficas entre os que estavam a bordo e o governador Manoel Ribas

Transcrevo a seguir algumas passagens da notícia:

“ … Os prédio mais altos já estavam com seus terraços completamente tomados pelos espectadores que primeiro queriam desfructar o deslumbrante espectaculo.”
Ás 9,30 horas, finalmente o “Hindenburg” era avistado, majestosamente, singrando o espaço.
Houve verdadeiro delírio popular.
Voando bastante baixo e vindo do sul, lentamente, o dirigível iniciou um vôo em circulo sobre a cidade.
Todos os seus detalhes podiam ser bem apreciados pela população, que aclamava a Allemanha e accena aos passageiros e tripulação do gigante.
As fabricas e trens apitando o ar sirenes dos jornaes com seu estridor, completavam o festivo aspecto que Curityba apresentava hontem pela manhã.
Depois de evoluir cerca de 40 minutos, sobre a cidade e em todas as direcções, o dirigível retomou a marcha em direcção a lêste.
Seus quatro motores passaram a funccionar com maior ruído, e a aeronave foi-se elevando, foi-se afastando.”

Hoje também seria um grande espetáculo


Caso tivéssemos hoje a passagem de uma aeronave como o “Hindenburg” sobre a cidade ela chamaria atenção da mesma maneira.
Nestes dias esta sendo notícia na impressa a passagem pelo Brasil do “Antonov An-225”, que é considerado a maior aeronave em operação no momento.
O “Antonov An-225” tem só 84 metros de comprimento e 18,1 m de altura. O “Hindenburg” tinha 265 metros de comprimento e um diâmetro de 41,2 m.
Ou seja, seria um espetáculo aqui e em qualquer lugar do mundo.

E assim a gente viaja


Pois é! Começamos com a foto de uma pintura, meio desgastada, na lateral de um prédio e acabamos viajando no dirigível.

Referências:

FAMILIA NELSON [anúncio]. Dezenove de Dezembro, Curitiba, 22 jan. 1876, n. 1676, p. 4.
O AERONAUTA Ceballos. Dezenove de Dezembro, Curitiba, 9 fev. 1876, n. 1681, Notícias, p. 3.
O MARECHAL do ares esteve em Curityba! O Estado, Curitiba, 2 dez. 1936., ano I, n. 53, p.1